* Trabalho duro: prazer ou obsessão?

Trabalho duro: prazer ou obsessão?
Nem todo mundo que trabalha muito é estressado e desprovido de vida pessoal.
Tem gente que encara longas jornadas porque ama o que faz - e ainda arranja tempo para o lazer, a família e os amigos.
Quase toda empresa tem os dois tipos. Ambos suam a camisa muitas horas e são bastante produtivos. Um, estressado, não consegue abrir brechas para o lazer e, quando consegue, só fala de trabalho, respira trabalho. O escritório é seu refúgio para os problemas da vida pessoal, que geralmente vai de mal a pior. Este é o famoso workaholic, o viciado em trabalho.


O que todo mundo estranha é o cara que chega empolgado na segunda-feira, mantém o entusiasmo a semana toda e tira do próprio trabalho energia para uma boa convivência com a família e os amigos. Trata-se do worklover, o apaixonado pelo trabalho.
O conceito foi criado pelo coordenador do Laboratório de Psicologia do Trabalho da Universidade de Brasília (UNB), Wanderley Codo. Ao investigar o grau de satisfação de 200 mil professores da rede pública, sua equipe descobriu que, mesmo sob péssimas condições, como baixos salários, infra-estrutura deficiente e falta de reconhecimento, 86% se dizem satisfeitos. O índice chega a 91% entre os que atuam na pré-escola e nas 1ª- a 4ª- séries. “Através do trabalho, podemos inventar o mundo. Isso é uma intensa fonte de prazer”, diz Codo.
O termo worklover veio na esteira de uma série de estudos que atestam que estar satisfeito com o trabalho faz bem tanto para a cabeça quanto para o corpo. Uma pesquisa feita pela Universidade de Manchester, na Inglaterra, com 250 mil trabalhadores de diferentes empresas, concluiu que funcionários insatisfeitos têm mais chances de apresentar baixa auto-estima, ansiedade e depressão, sintomas associados ao stress. Também são negativamente afetados os sistemas imunológico, cardiovascular e digestivo, este por causa de hábitos alimentares errados. Para completar, doenças causadas pelo esforço repetitivo podem ser agravadas. “Acordados, passamos mais horas no trabalho do que em casa. Se ele não satisfaz, a saúde é danificada”, diz um dos autores da análise, Cary Cooper, professor de Psicologia Organizacional e Saúde de Manchester e ex-consultor da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Nesse quesito, o Brasil vai mal. Em outro levantamento da mesma universidade, que investigou 24 países, foi detectado que os profissionais brasileiros estão entre os mais insatisfeitos em todo o mundo.
O mais comum é escutar gente se queixando do emprego, das muitas horas passadas na empresa, da tortura que é o domingo à noite. Na origem, o termo trabalho vem da palavra “tripalium”, um instrumento agrícola, mas também de tortura. Segundo o cristianismo, o trabalho foi imposto ao homem como castigo quando ele foi expulso do paraíso. Somente nos séculos 14 e 15, com a ética protestante, trabalhar passou a ser dignificante. No ocidente, herdamos os dois lados. Trabalho é sofrimento e nos dá dignidade ao mesmo tempo. Mais que isso, nos dá identidade. “Quem está sem emprego se sente por fora, perde as relações sociais”, diz a psicóloga Rosângela Casseano, consultora do site Sucesso e Carreira. No outro extremo, não é raro pessoas se apresentarem usando a função que exercem e a empresa em que trabalham, antes mesmo do nome. É um esquema perigoso. “Freud já dizia que, para ser feliz, o homem precisa de trabalho e de amor”, afirma o sociólogo do trabalho da Universidade de Quebec, no Canadá, Angelo Soares. “Alguém que só vive para o trabalho não cultiva uma base de apoio familiar e social. Não lhe sobra nada se perde o emprego ou se tem problemas profissionais.”
Os pesquisadores agora investigam os motivos que levam uma pessoa a ser feliz ou não no trabalho. O essencial parece ser o prazer que vem da realização das tarefas em si e do significado que elas produzem, como o aprendizado. O curioso é que, para estar satisfeito, o trabalhador não precisa necessariamente de salários altos. Em estudo do instituto britânico de pesquisa de mercado GFK Nop com 30 mil pessoas de 30 países, o Brasil é o nono no ranking de felicidade - o primeiro é a Austrália. E o item citado como mais importante para a satisfação foi a saúde, não a estabilidade financeira, que ficou em terceiro lugar, depois da casa própria.
Mas, claro, as pessoas são diferentes. “Para alguns, o importante é pagar as contas, consumir bens, e a satisfação vem, sim, de um bom salário. Para outros, é um bom relacionamento com colegas”, diz Maria Carmem Martinez, pesquisadora da faculdade de saúde pública da Universidade de São Paulo, que tratou do assunto em sua dissertação de mestrado.
“Através do trabalho, podemos inventar o mundo. Isso é uma intensa fonte de prazer” - diz Wanderley Codo , psicólogo da UNB.


Mas é importante lembrar que quem sente muito prazer com o trabalho fica tão engajado que pode cruzar a linha e virar workaholic. “É uma fronteira tênue”, afirma Cooper.
O worklover, no entanto, leva vantagem: pelo tipo de relação que mantém com o trabalho, tem mais chances de conseguir mudar. “Para não adoecer e poder continuar fazendo o que gosta, ele busca ajuda, soluções e compensações para o stress”, afirma a psicóloga Rosângela.


WORKLOVER X WORKAHOLIC
Worklover:
1) É apaixonado pelo trabalho;
2) Está geralmente satisfeito com o trabalho e sabe lidar melhor com as dificuldades que aparecem;
3) Se o trabalho vai mal, busca ajuda e soluções para os problemas;
4) Trabalha muitas horas por dia sem perceber o tempo passar, mas a satisfação se estende à vida pessoal. Tem equilíbrio;
5) Se está sobrecarregado, encontra maneiras de priorizar tarefas e abrir espaço na agenda para a vida pessoal;
6) Sofre menos de stress,garantindo saúde mental e física por mais tempo.


Workaholic:
1) É viciado em trabalho;
2) É motivado por natureza, mas não necessariamente está satisfeito com o trabalho;
3) Se a vida profissional vai mal, sofre e descuida da saúde;
4) Trabalha muitas horas por dia e abandona a vida pessoal. Piora a situação porque foge dos problemas privados “internando-se” mais horas na empresa;
5) Se está sobrecarregado, encontra maneiras de trabalhar mais;
Apresenta mais stress e tem mais chances de sofrer doenças cardiovasculares.


Matéria publicada por International Sites Brasil (www.internationalsites.com.br), em parceria com a Gráfica Muito Mais Barata (graficamuitomaisbarata.blogspot.com.br) e o Portal Consultas Contábeis (consultascontabeis.blogspot.com.br). Editores: Flávio Del Puente (Vendas e Marketing), Clara Cont (Contabilidade e Finanças) e Mauro Marques (Gestão e Empreendedorismo).